A
Física e a Sociedade
A Física
é o campo da ciência que investiga os fenômenos e as estruturas mais
fundamentais da natureza. O conhecimento acumulado neste campo tem
possibilitado à humanidade compreender aspectos cada vez mais complexos da
natureza e, através dele criar sistemas, dispositivos e materiais artificiais
que tem contribuído decisivamente para o progresso tecnológico.
Foram as
investigações de físicos europeus sobre os fenômenos elétricos e magnéticos, no
século passado, que levaram à invenção do gerador e do motor elétricos
utilizados atualmente para gerar energia elétrica e para produzir movimento
numa variedade enorme de aplicações que afetam nossa vida diária. Essas mesmas
investigações levaram à descoberta, no século passado, de que a luz é uma onda
eletromagnética. Ondas desta natureza, mas com menor freqüência propiciaram a
invenção do rádio, da televisão, do radar e dos sofisticados meios de
telecomunicações que estão incorporados na sociedade moderna.
A
descoberta da mecânica quântica na década de 1920 possibilitou a compreensão
detalhada da estrutura atômica e das partículas fundamentais da natureza. Além
de abrir espaço para um grande desenvolvimento da Física e de outros campos da
ciência, como a química, a bioFísica e a astroFísica por exemplo, a mecânica
quântica conduziu à descoberta de novos fenômenos. Um deles, o da condução
eletrônica em semicondutores, possibilitou a invenção do transistor em 1947 e
dos circuitos integrados no final da década de 50. Essas invenções revolucionaram
a eletrônica e abriram o caminho para a disseminação dos computadores que estão
transformando os costumes da sociedade. Outra invenção, a do laser em 1960,
propiciou o advento das comunicações óticas e está produzindo profundas
modificações na eletrônica. Infelizmente, a Física tem possibilitado tanto
algumas invenções que tornam a vida melhor e mais confortável quanto outras que
podem destruí-la. Como utilizar as descobertas científicas apenas para o bem é
um dos principais desafios da sociedade moderna e nessa discussão os físicos
podem desempenhar importante papel esclarecedor.
Objeto e Método da Física
Uma
característica essencial da pesquisa em Física é a procura dos aspectos mais
fundamentais das estruturas e dos fenômenos, bem como a sua compreensão e
descrição em termos de leis as mais gerais possíveis. A Física investiga desde
partículas subatômicas, átomos e moléculas, até fenômenos que envolvem grandes
aglomerados delas, como a matéria ordinária. Nessa escala, por exemplo, suas
leis e métodos são usados para o estudo da Terra, e dos fenômenos que se passam
em sua atmosfera, dos planetas e das galáxias. Em uma escala maior, essas leis
e métodos permitem uma descrição do Universo como um todo, e a criação de
modelos para a sua evolução. Nesse percurso do microcosmo ao macrocosmo
passa-se de dimensões de 10-15 cm (raio do próton) até o tamanho de uma galáxia
(1021 m ) ou do Universo ( 1025 m).
A Física
se encontra em estágio de grande vitalidade: quase toda a atividade atual de
pesquisa é feita sobre temas inexistentes há cem anos. A maioria deles
decorrentes da descoberta da estrutura atômica da matéria e sua compreensão por
meio da mecânica quântica. Na Física de hoje muitos fenômenos estudados não
fazem parte de nossa experiência cotidiana, sendo necessárias condições muito
especiais para produzi-los e analisá-los. Isto tem levado a espetaculares
sucessos tecnológicos que suscitam grandes investimentos nesta área, com a
conseqüência de que há atualmente um grande número de profissionais dedicados à
pesquisa Física. Esses dois aspectos ( a dificuldade em produzir e analisar os
fenômenos e o grande número de participantes do processo) do panorama
científico contemporâneo estabelecem uma diferença importante entre a Física de
nossos dias e a Física clássica. O pesquisador moderno necessita de equipamento
sofisticado, apoio técnico de alto nível, uma infraestrutura adequada e acesso
rápido aos resultados obtidos por outros pesquisadores. Apesar disso, o método
básico científico permanece, em essência inalterado.
Contudo,
a complexidade dos equipamentos e da linguagem matemática das teorias tornou
inevitável a divisão dos físicos em duas categorias: teóricos e experimentais.
Os experimentais realizam o contato concreto com os fenômenos, planejando,
construindo e utilizando o equipamento para testar conjeturas geradas pelas
próprias experiências ou sugeridas pelos teóricos, que, por sua vez trabalham
preponderantemente na elaboração de modelos abstratos para conjuntos de
fenômenos ou, em nível mais avançado, na construção de teorias.. Ambos são
indispensáveis ao progresso da Física, como elos de uma mesma corrente. A
pesquisa experimental na Física Contemporânea exige alto grau de engenhosidade
e equipamentos especializados. Com freqüência estes equipamentos são criados e
desenvolvidos pelos próprios físicos, e muitas vezes encontram aplicações na
indústria e em outros campos da ciência. Em geral pesquisadores, estudantes e
técnicos de apoio trabalham congregados em grupos de pesquisa, que normalmente
recebem recursos diretamente dos órgãos financiadores. Raramente os físicos
trabalham isoladamente, sendo as publicações científicas em geral assinadas por
vários autores, e com freqüência a colaboração científica extrapola os muros
das instituições congregando físicos de vários locais ou até mesmo de países
diferentes.
O
processo científico moderno é complexo e dispendioso. Por isso, seu
desenvolvimento e manutenção dependem de decisões políticas do poder público,
que afetam de muitas maneiras toda a sociedade.
Áreas da Física
Sendo um
campo extremamente sofisticado da ciência, a Física investigada nos dias de
hoje é sub-dividida em várias áreas distintas. Uma divisão freqüentemente
utilizada é a seguinte:
·
Física das Partículas Elementares
·
Física Nuclear.
·
Física de Plasmas
·
Física da Matéria Condensada.
·
Física Atômica e Molecular.
·
Física Geral e Física Clássica.
·
Áreas Interdisciplinares.
A seguir
apresentamos uma descrição resumida das principais características e objetivos
dessas áreas.
Física das Partículas Elementares
A Física
das Partículas Elementares tem por objetivo a descoberta e a compreensão dos
constituintes mais simples da matéria e das forças básicas que atuam entre
eles. Busca-se, sobretudo, as leis básicas e princípios unificadores que
forneçam um quadro racional dos fenômenos já conhecidos e possam prever
fenômenos novos.
Podemos
caracterizar uma partícula elementar como sendo aquela que não apresenta
estrutura interna. Com tal definição em mente, constatamos facilmente que o
próprio conjunto das partículas elementares tem variado conforme a época
histórica considerada. Os átomos foram considerados os constituintes mais
simples da matéria por longo tempo. Descobriu-se então que os átomos são
constituídos de um núcleo, formado por prótons e neutros, e elétrons. Os
prótons e neutrons foram considerados elementares por cerca de 50 anos; porém,
durante as duas últimas décadas, descobriu-se que os mesmos possuem uma
estrutura interna que pode ser descrita em termos de partículas mais simples
chamadas quarks. Os elétrons, por outro lado, até hoje não apresentaram
indícios de possuir uma estrutura interna e portanto são considerados como
partículas elementares.
As
partículas elementares, atualmente, são classificadas em três categorias: os
léptons, os quarks e os bósons de gauge (ou de calibre). Os léptons são: o
elétron, o muon, o tau e seus respectivos neutrinos. O elétron , o muon e o tau
possuem carga elétrica e massa. Os neutrinos não possuem carga elétrica e
busca-se esclarecer se possuem ou não massa. Os quarks são as partículas que
compõem os hadrons denominação dada aos mésons (p. ex., os mésons pi, rho,
etc.) e aos bárions (p. ex., o próton, o neutron, os hiperons, etc.). Os bóson
de gauge são partículas mediadoras da interação entre os quarks e os léptons. O
mediador da força eletro-magnética é o fóton.
Existem
quatro forças básicas na natureza: a gravitação, a eletromagnética, a interação
fraca e a força nuclear forte. A intensidade com que essas forças atuam sob
condições típicas é dada pelo valor de sua constante de acoplamento, que em
unidades naturais têm os seguintes valores: força gravitacional 10-39 , força
fraca 10-5, força eletromagnética 10-2 e força forte 1. Um dos objetivos
básicos da pesquisa nesta área é a obtenção de modelos que unifiquem todas
interações. Já existe uma teoria unificada das interações eletromagnéticas e
fracas mas ainda não há um esboço satisfatório de uma teoria de unificação de
todas as forças. O esforço para a compreensão das partículas elementares tem
extrapolado para áreas tradicionalmente distantes, como a Relatividade,
Gravitação e Cosmologia. Descobertas recentes na teoria das partículas têm
levado a pistas importantes para a compreensão da origem do universo.
Na
Física das Partículas Elementares as experiências consistem basicamente na
observação dos resultados das colisões entre partículas, a fim de obter
informações acerca de suas interações. Quase todas as experiências nessa área
são efetuadas utilizando-se aceleradores que produzem feixes de partículas de
alta energia que são utilizados para o estudo de colisões com alvos adequados.
Devido à necessidade de um aporte apreciável de recursos financeiros para a
construção de grandes aceleradores de partículas, existem poucos laboratórios
no mundo em condições de realizar experiências de vanguarda nessa área. Isto
faz com que a cooperação científica internacional seja essencial para a
pesquisa nesta área.
A Física
de Partículas, tem quarenta anos de tradição no Brasil, tendo dado relevantes
contribuições tanto em problemas teóricos como em descobertas experimentais.
Atualmente o País conta com poucos grupos experimentais nesta sub-área.
Pesquisas teóricas em Fenomenologia de Partículas e em Teoria Quântica dos
Campos são desenvolvidas em diversos grupos do País, os quais têm conseguido
manter razoável intensidade de cooperação internacional. Esta cooperação é
essencial para a atividade de pesquisa em Física de Partículas e Teoria de
Campos tanto teórica como experimental, e deve ser considerada como requisito
básico para a manutenção do bom nível científico nessas pesquisas. A ausência
de uma maior atividade experimental se constitui no grande empecilho a um maior
desenvolvimento desta sub-área. Está havendo em conseqüência uma certa
emigração de pesquisadores para áreas limítrofes.
Física Nuclear
Compreende
o estudo da estrutura de núcleos nos estados fundamentais e excitados; o estudo
das interações entre núcleos e outras partículas, tais como fótons, elétrons,
mésons, etc, tanto no que diz respeito à natureza da interação envolvida como à
informação sobre a estrutura do núcleo assim obtido; estudo de interações entre
núcleos e núcleons ou outros núcleos; e a interação de núcleos ou radiações
nucleares com a matéria.
Os
problemas da Física Nuclear são caracterizados pelo fato de que a interação
entre núcleons, responsável por sua agregação em núcleos, ainda é conhecida
somente em termos fenomenológicos, contrastando fortemente neste sentido com a
Física Atômica. Além disso, a estrutura nuclear não é caracterizada nem como um
problema de poucos corpos quase independentes, como os elétrons das camadas
atômicas, nem como um sistema de muitos corpos, típico da matéria condensada.
Por estas razões, a estrutura do núcleo e suas interações podem ser
classificadas como ainda pouco estudadas experimentalmente e mal-entendidas
teoricamente. As experiências e as teorias até agora desenvolvidas revelam que
o núcleo tem um rico espectro de modos de excitação, que ainda desafia as
explicações teóricas. A extensão do estudo de interações nucleares até energias
mais altas e a sistemas mais complexos, como, por exemplo, nas interações entre
núcleos complexos acima da barreira coulombiana, revela novos e fascinantes
modos de excitação.
Durante
o seu desenvolvimento, a Física Nuclear tem tido interações fortes com quase
todas a outras sub-áreas da Física.
Atualmente,
as principais ferramentas da Física Nuclear são os aceleradores: aceleradores
eletrostáticos para baixa energia e cíclotrons, aceleradores lineares e outros
tipos para energias mais altas. Os reatores ainda oferecem interessantes
possibilidades para a pesquisa nessa sub-área. No País, são poucos os
laboratórios sem algum tipo de acelerador que atualmente mantém um programa
significativo de pesquisas em Física Nuclear.
Uma área
onde o impacto de Física Nuclear transcende as fronteiras das Ciências Exatas,
tendo imensas implicações sociais, econômicas e políticas, é a área de Energia
Nuclear. Uma análise das suas conseqüências para nossa sociedade, tanto
positivas quanto negativas, transcende a este documento, mas certamente a
Energia Nuclear se destaca como uma das principais causas do reconhecimento da
importância e relevância da ciência para os problemas imediatos da nossa
sociedade.
Física de Plasmas
Física
de Plasmas investiga movimentos coletivos de partículas carregadas, elétrons ou
íons, ou estados de equilíbrio destas partículas, sujeitas à ação de campos
elétricos e magnéticos externos e à ação de seus próprios campos. Este conjunto
de partículas e campos representa um meio fluido chamado Plasma. Em particular,
são tratadas questões como confinamento de plasma, equilíbrio e sua
estabilidade, aquecimento e propriedades de transporte, propagação de ondas,
interação de partículas com onda, instabilidades, turbulências e caos.
Plasmas
são encontrados na natureza, como em descargas elétricas (relâmpagos), na
ionosfera, no espaço interplanetário e intersideral, na corona solar, nas
estrelas, anãs brancas e pulsares, e também são produzidos nos laboratórios,
como em descargas elétricas, em dispositivos para pes quisa de fusão nuclear,
em lasers a gás, dispositivos de semicondutor e metais e equipamentos de
plasmas industriais.
O estudo
desta área no Brasil só foi iniciado na década de 70, mas mostra-se em pleno
vigor atualmente.
Física da Matéria Condensada
A Física
da Matéria Condensada investiga os estados da matéria em que os átomos
constituintes estão suficientemente próximos e interagem simultaneamente com
muitos vizinhos. Ela é uma área de investigação básica, que procura a explicação
detalhada de propriedades e fenômenos da matéria condensada a partir dos
conceitos e das equações fundamentais da mecânica quântica e da Física
estatística. São particularmente interessantes as propriedades elétricas,
óticas, magnéticas, mecânicas e térmicas. Por outro lado a Física da Matéria
Condensada tem uma enorme quantidade de aplicações na tecnologia moderna. Por
exemplo: foi a partir de investigações nesta área que surgiram grandes
inovações tecnológicas como os transitores, os circuitos integrados, os
microprocessadores, os fios supercondutores e os lasers semicondutores que
deram origem às comunicações óticas.
Esta
área da Física começou a adquirir características próprias apenas a partir de
1948, inicialmente sob o nome de Física do Estado Sólido. Até aquela época as
propriedades da Física dos sólidos eram objeto de estudo como exemplo de
aplicação da mecânica quântica, estabelecida há pouco mais de vinte anos. Foi a
descoberta do transistor naquele ano que deu um enorme impulso à pesquisa em Física
de Sólidos.
Na
década de 50 os trabalhos nesta área estavam concentrados nos sólidos
cristalinos, cujos íons formam um arranjo ordenado periódico. Nesses sólidos
ocorrem fenômenos que não existem em materiais amorfos. Além disso, como eles
têm estrutura cristalina com propriedades de simetria bem definidas, os
fenômenos podem ser interpretados pelas leis da Física com mais facilidade. Com
o progresso das técnicas experimentais e teóricas de investigação, esta área se
estendeu a materiais como o vidro, polímeros orgânicos diversos (teflon,
poliacetileno, etc.), ligas amorfas e até mesmo aos líquidos, passando a ser
conhecida como Física da Matéria Condensada. Nesta área da Física trabalham
atualmente mais de 40% dos físicos em todo o mundo e a cada ano surgem novas
linhas de pesquisa, impulsionadas pela descoberta de novos fenômenos e de novos
materiais artificiais. Estas linhas por sua vez abrem o potencial para o
desenvolvimento de novos dispositivos que encontram aplicações nos mais
variados segmentos tecnológicos.
Entretanto,
não foi apenas por causa de sua importância tecnológica que a nova área se
desenvolveu rapidamente. A enorme variedade de fenômenos que os elétrons e os
núcleos apresentam coletivamente em sólidos deu origem a descobertas fundamentais
e excitantes. A Física da Matéria Condensada é atualmente uma das áreas mais
estimulantes da ciência, contribuindo continuamente para a descoberta de novos
fenômenos fundamentais e de novos materiais avançados . Apenas nos últimos dez
anos pode-se destacar: a descoberta do efeito Hall quântico; o desenvolvimento
de materiais semicondutores fabricados pela deposição sucessiva de monocamadas
atômicas de modo a formar super-redes, hetero-estruturas ou poços quânticos; a
descoberta de efeitos magnéticos e eletrônicos em sistemas de dimensionalidade
menor que 3;a identificação e compreensão de fenômenos críticos e transições de
fase em sistemas complexos, a formulação teórica e a observação experimental de
fenômenos de turbulência e caos em uma grande variedade de sistemas; a
descoberta de processos de condução por ondas de densidade de carga e mais
recentemente a síntese de materiais supercondutores a temperaturas mais altas.
Física Atômica e Molecular
Esta
área estuda a estrutura e os fenômenos eletrônicos em átomos individuais ou em
átomos que compõem moléculas isoladas. Como é bem conhecido, as tentativas de
entender a estrutura dos átomos constituíram a base da Física Moderna,
desenvolvida nas décadas de 20 e 30. De certa maneira, depois daquela época, o
interesse dos físicos passou mais para as áreas da Física Nuclear e de
Partículas Elementares, deixando os problemas da estrutura de moléculas para os
químicos. Nos últimos anos, entretanto, esta área foi revolucionada com o
desenvolvimento dos lasers e das modernas técnicas de ótica, ressurgindo como
um dos principais ramos de pesquisa da Física.
Os
lasers têm possibilitado a espectroscopia atômica e molecular com alta precisão
e resolução, desde o infravermelho distante até a faixa ultravioleta. Além disso
eles têm permitido a realização de experiências novas, como a observação dos
átomos em colisão ou em reações químicas, a geração de pulsos de curtíssima
duração (10-13 seg.), a construção de relógios atômicos de precisão e padrões
para metrologia, etc.
Por
outro lado, o surgimento dos grandes computadores têm estimulado bastante os
trabalho teóricos nesta área. A teoria das estruturas de átomos e moléculas
compreende a teoria de estruturas eletrônicas de átomos e moléculas, técnicas
computacionais e numéricas para estes estudos e o cálculo de propriedades
específicas de átomos e moléculas. Os cálculos teóricos têm sido incentivados
não somente pelo seu interesse intrínseco, mas, também, pelos resultados
experimentais obtidos a partir de novas espectroscopias com lasers e de
fotoelétrons.
Esta
área está relativamente pouco desenvolvida no Brasil. Neste documento ela está
apresentada como uma sub-área de Física da Matéria Condensada, porque nela
trabalham quase todos os físicos que estudam átomos e moléculas no País.
Física Geral e Física Clássica
Compreende
aspectos da Física Teórica, da Física Matemática, instrumentação e técnicas de
laboratório, aspectos educacionais, históricos e filosóficos da Física.
A arte
do físico teórico está em abstrair de uma situação Física complexa, apenas, os
aspectos mais relevantes ao fenômeno em estudo, construindo o modelo mais
simples possível, evitando, porém, omitir fatores que possam desempenhar um
papel importante. os conceitos teóricos com que trabalha, são conforme frisou
Einstein "livres criações do espírito humano".
A meta
da Física Teórica é reduzir a aparente complexidade dos fenômenos naturais a um
conjunto de leis básicas simples, das quais os fenômenos observados possam ser
obtidos por dedução. Este caráter dedutivo leva ao emprego da matemática como
ferramenta básica de trabalho.
A Física
Matemática examina e aperfeiçoa essa ferramenta de trabalho e o rigor das
deduções, promovendo contribuição tanto da matemática à Física quanto da Física
à matemática.
A Física
Teórica e a Física Matemática têm uma longa tradição de qualidade no Brasil,
que felizmente se mantém. Além da contribuição fundamental dos vários físicos
estrangeiros ilustres, que formaram escolas entre nós (Gleb Wataghin, Bernhard
Gross, Guido Beck) cumpre ressaltar os trabalhos e a atuação de Theodoro Ramos,
Henrique Morize, Pontes de Miranda e outros.
Física
Clássica é uma denominação que se contrapõe à Física Quântica, que estuda a
estrutura atômica e suas subestruturas. A Física Clássica compreende a Mecânica
de Newton e suas aplicações tanto a sistemas discretos (como os planetas em seu
movimento ao redor do Sol) quanto contínuos (Movimentos de fluídos), Acústica,
Elasticidade), o Eletromagnetismo (incluindo a Ótica), a Termodinâmica, a
Teoria da Relatividade Restrita e a Teoria da Gravitação de Einstein ou
Relatividade Geral.
Relatividade, Gravitação e Cosmologia
A teoria
da Relatividade de Einstein se constitui, através de uma profunda análise dos
conceitos de espaço e tempo, em uma revolução que não poupou, ao menos do ponto
de vista conceitual, nenhuma sub-área da Física. Entre as suas conseqüências
mais espetaculares estão a demonstração da equivalência entre a massa e
energia, e a nova teoria da gravitação, que substituiu a gravitação universal de
Newton. A este última teoria foi dado, por Einstein, o nome de Relatividade
Geral. Ela nasceu da necessidade de abolir na teoria da gravitação newtoniana o
conceito de "ação a distância", incompatível com a Teoria da
Relatividade (Restrita) de Einstein.
Durante
muitos anos a Relatividade Geral foi campo de trabalho de um número reduzido de
físicos, tanto por causa do desenvolvimento, em parte simultâneo, da Física
Quântica, quanto pela impossibilidade técnica de testes experimentais da
teoria, adicionada aos três testes clássicos propostos por Einstein. Este é,
aliás um exemplo interessante da necessidade de um desenvolvimento paralelo dos
aspectos teóricos e experimentais de uma área da Física para que ela possa
florescer.
O grande
refinamento das técnicas experimentais dos últimos anos, ligado ao
aperfeiçoamento dos radares, lasers e relógios, radioastronomia, bem como o uso
dos satélites artificiais, estimularam a retomada dos trabalhos experimentais
em Relatividade Geral.
Entre os
tópicos mais vibrantes da pesquisa atual nesta sub-área estão os buracos negros
e as ondas gravitacionais. A existência de buracos negros é uma das
conseqüências da Relatividade Geral. Neles a atração gravitacional se torna tão
intensa que, classicamente, nem mesmo a luz pode escapar. A observação
experimental deste fenômeno é ainda uma questão controvertida. Ondas
gravitacionais se encontram na mesma situação, já que sua existência não foi
ainda diretamente confirmada pela experiência.
Um dos resultados mais importantes da Relatividade Geral é o
modelo cosmológico do Universo em expansão, a partir da explosão inicial de um
Universo muito quente, seguida de sua expansão e resfriamento. A descoberta de
uma radiação de fundo isotrópica de 3k de temperatura deu um apoio experimental
muito importante a este modelo cosmológico standard.
Mais,
recentemente, tem havido uma grande interação entre a cosmologia e a Física das
Partículas Elementares, já que o comportamento dos primeiros minutos do
Universo parece ser dominado pela Física daquelas partículas subatômicas.
No
Brasil, o estudo da Relatividade Geral nasceu antes mesmo da fundação da USP,
existindo publicações de Theodoro Ramos e de Pontes de Miranda na década de 20.
Este estudo nunca foi abandonado, sendo utilizado hoje em dia por vários grupos
de boa qualidade.
No
século XX, a Física se desenvolveu principalmente na direção da explicação
microscópica dos fenômenos. Entretanto, vários ramos da Física Clássica
continuam a ser de grande interesse não só por seu valor intrínseco na explicação
dos fenômenos naturais, mas, também, por suas aplicações.
Em
geral, a Física Clássica pode ser dividida nos seguintes campos, que serão
descritos suscintamente.
·
Mecânica: é o estudo do movimento
dos corpos sob a ação de forças. A Mecânica Clássica trata de objetos grandes
em comparação com átomos e com velocidades pequenas em relação à velocidade da
luz. Atualmente, os estudos de mecânica têm sido revitalizados pelo cálculos de
órbitas de satélites, e há programas ativos em técnicas de aproximação e
previsão utilizando computadores.
·
Mecânica dos meios Contínuos -
compreende a Elasticidade e a Reologia, que estudam os corpos deformáveis, e a
Mecânica dos Fluídos, que trata do movimento de gases e líquidos sob a ação de
forças. Seus princípios constituem os fundamentos da Engenharia Mecânica e de
Estruturas. Recentemente, a Mecânica de Fluídos tem-se tornado especialmente
importante para a Física dos Plasmas. A Dinâmica de Fluídos, também, tem
evidentes aplicações em Aerodinâmica e Meteorologia, bem como na Engenharia
Nuclear.
·
Acústica - trata da geração e
propagação de vibrações mecânicas na matéria e de sua aplicação em vários
campos da ciência e da tecnologia. Poderia ser descrita como parte da Mecânica
dos Meios Contínuos, mas é tratada separadamente por sua grande importância. É
outro campo da Física Clássica que ganhou novo impulso recentemente,
particularmente no que diz respeito ao domínio de ultrassons.
·
Eletromagnetismo - antigamente
estudado como dois campos distintos, Eletricidade e Magnetismo, o
Eletromagnetismo trata da inter-relação entre campos elétricos e magnéticos
variáveis no espaço e no tempo, bem como de sua propagação. As equações de
Maxwell exprimem de forma concisa os fundamentos da teoria eletromagnética. As
aplicações na geração, transporte e utilização de Energia e de Telecomunicações
são imensas. Esta última tem interfaces com a área multidisciplinar de
dispositivos eletromagnéticos e com a área de microondas em Engenharia.
·
Ótica - a Ótica Física teve um
renascimento como área de pesquisa com a descoberta do laser, que ao mesmo
tempo gerou fontes coerentes, monocromáticas e de alta potência. Entre os
assuntos mais importantes, atualmente, podemos citar Ótica Coerente, incluindo
Holografia e vários tipos de Interferometria, Ótica Não-linear, que faz
interface com várias áreas importantes da Física Atômica e Molecular,
discutidas em outra seção, e Propagação da Luz em meios Inomogêneos, por
exemplo em fibras óticas que tem óbvias implicações tecnológicas mas que tem,
também mostrado ser uma área bastante rica em problemas fundamentais. A Ótica
no Brasil é muito usada para investigar fenômenos em sólidos. Por isso, neste
documento ela está analisada como uma sub-área da Física da Matéria Condensada.
·
Termodinâmica - estuda as relações
entre calor e trabalho, e é baseada num pequeno número de leis gerais da
Natureza. O poder da Termodinâmica está em sua capacidade de analisar os
sistemas mais gerais sem considerar sua estrutura microscópica. Seus princípios
e métodos permeiam toda a Física, Química e Engenharia.
Mesmo
sem uma descrição mais detalhada das sub-áreas Clássicas de Fenomenologia,
pode-se perceber sua importância para a ciência e a tecnologia. A pesquisa
nestes campos no Brasil é quase inexistente. Isto se explica talvez pela origem
recente da Física no país. A maioria dos físicos foi atraída para os campos
abertos recentemente, e a Física Clássica, como área de pesquisa, foi relegada
a um segundo plano.
Áreas Interdisciplinares
São as
que reúnem duas ou mais das principais áreas da ciência ou da tecnologia, uma
delas sendo a Física. A principal dificuldade nesse tipo de atividade
científica e a necessidade de se somarem com potências de mais de um setor de
atividade científica. Algumas dessas áreas de mais atividade no país estão
descritas a seguir .
Ciências dos Materiais
A
sub-área de ciências dos materiais está situada na fronteira entre a Física e a
Tecnologia de Materiais. Sua importância está no desenvolvimento de novos
materias de uso tecnológico, na compreensão básica das propriedades de
materiais, e como elemento de formação de pessoal técnico-científico de alto
nível, capaz de enfrentar futuros desafios tecnológicos. A variedade de
técnicas experimentais e teóricas modernas e clássicas de alta sofisticação
usadas nesse campo contribui para sua aproximação acentuada à Física do Estado
Sólido.
Incluem-se
nesta sub-área o crescimento e preparação de cristais, deposição de filmes,
estudo de propriedades (térmicas, mecânicas, elétricas, magnéticas e óticas) de
cerâmicas, vidros, polímeros, metais e suas ligas, corrosão e oxidação, etc. A
preparação de dispositivos de semicondutores, eletromagnéticos e de polímeros,
também se enquadra nesta sub-área, bem como o desenvolvimento de novos
materiais como, por exemplo materiais compostos.
Biofísica, Física Médica e Engenharia
Biomédica
O
interesse que grande números de físicos vem tendo no estudo dos processos
biológicos tem-se acentuado nesses últimos anos. O bioFísica abrange um vasto
campo de interesses, que tendem a aumentar. Os problemas a enfrentar são de
natureza complexa e altamente desafiantes, exigindo pessoal com boa formação em
Física e em Biológia. Pode ser qualificada como uma sub-área essencialmente
inter-disciplinar, onde técnicas clássicas, como por exemplo Raios X , tem sido
extensivamente utilizadas ao lado de técnicas mais modernas, como
Espectroscopia de Batimento Ótico, Espectroscopia Raman ; Ressonância
Eletroparamagnética, Efeito Mössbauer, etc.
Em
paralelo a essas atividades de pesquisa básica, tem-se desenvolvido de forma
acelerada nos últimos anos, o uso de técnicas largamente utilizadas por físicos
e engenheiros na área médica, o que se tem chamado de Física Médica e
Engenharia Biomédica. as técnicas que mais se tem empregado são as de
ultra-som, Raios X, em diagnose médica, radiações ionizantes no tratamento do
câncer, a de sinais elétricos das mais diversas origens, tanto em diagnose (por
exemplo , em eletrocardiograma) como em análise clínica ( medidores contínuos
de concentração de íons). O uso da Eletrônica Digital e de métodos
computacionais no tratamento de sinais obtidos pelos mais variados tipos de
transdutores é, também, uma área de grande processo. O desenvolvimento de
órgãos artificiais e os mais variados tipos de equipamentos auxiliares, como
criobisturi, magnetocardiógrafo, tomógrafo de RMN , é o que mais caracteriza a
área de Engenharia Médica .
Fontes Não Convencionais de Energia
A
importância crescente que os problemas de energia assumiram no desenvolvimento
das nações modernas na última década trouxe aos físicos novas e importantes
oportunidades e desafios.
Estes
problemas decorrem basicamente da necessidade de desenvolver novos métodos de
produção de Energia (solar, ventos, gradiente térmico dos oceanos, ondas, etc.)
e de aumentar a eficiência das máquinas comuns, baseadas no uso dos
combustíveis fósseis convencionais (carvão, petróleo, e gás). Em geral, os
métodos e aparelhos envolvidos funcionam na base das leis de mecânica clássica
e são conhecidos há muito tempo, havendo, porém, sérios problemas de engenharia
na sua realização prática.
Muitos
físicos estão participando no estudo dos problemas de energia, ao lado de
engenheiros, economistas, urbanistas e cientistas sociais tendo contribuído
significativamente para os progressos do campo.
Texto gentilmente sedido pela FísicaNet <http://fisica.net>. Para outros assuntos
sobre física veja em Artigos
<http://www.fisica.net/artigos>.